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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Caderno de Trabalho: Propostas de literacia para a igualdade de género e a qualidade de vida

Numa sociedade que se quer de conhecimento e de aprendizagem contínua, faz-nos sentido a partilha sistematizada da experiência vivida, de modo que possa ser questionada por outras pessoas. Daí a ousadia de apresentar aqui algumas sugestões de trabalho.

Assim, tal como afirmámos inicialmente, "não pretendemos “formar” ninguém, este caderno não é um manual de instrução, onde conceitos e textos teóricos, aplicações práticas e exercícios conduziriam o/a leitor/a a aperfeiçoar as suas capacidades e competências no domínio da liderança. Este caderno serve antes como proposta de Percursos de Literacia para serem conduzidos e co construídos pelos/as próprios/as participantes" (Múrias, Koning, & Ribeiro, 2010: 6).

A nossa proposta, revisitando a inicial, é que o Caderno possa constituir um desafio para a realização de Percursos de Literacia com diversos grupos sociais. Assim, desejamos que este Caderno possa ser uma ferramenta útil e contribuir para a construção de espaços de sensibilização e conscientização capazes de enformar novas práticas, permitindo o envolvimento de um número cada vez maior de cidadãs e cidadãos com uma consciência crítica capaz da emergência de feminilidades e masculinidades alternativas em liderança.

“Tivemos cinquenta anos de fascismo. Portanto, nós habituamo-nos a reconhecer como líder aquele que é autoritário, aquele que manda, aquele que pode, aquele que exerce autoritariamente o seu poder”, afirmou uma participante num dos workshops realizados no contexto da Fundação Cuidar O Futuro. Será que vamos conseguir vencer a reprodução destes estereótipos e hábitos? Ou será que a proposta de reinventar lideranças e de transformar as formas dominantes de liderança em formas de liderança partilhada constitui uma utopia?

Acreditamos que é preciso traduzir os horizontes das dimensões utópicas em projetos concretos de intervenção em que problematizamos o nosso agir. É importante abrandar e conversar. Foi essa a proposta do projeto Lideranças Partilhadas: proporcionar espaços e momentos de conversa, reflexão e partilha. É esse o desafio que, no termo do projeto, apresentamos neste Caderno a outras pessoas e grupos.

No Capítulo Aprendizagem pela conversa tentamos fundamentar a proposta de uma metodologia de aprendizagem narrativa e existencial.

No Capítulo Conceitos em construção apresentamos contributos para a concetualização dos elementos centrais dos percursos de literacia que se propuseram neste projeto – igualdade de género, qualidade de vida, lideranças partilhadas – assumindo o nosso posicionamento.

O Capítulo Operacionalização da metodologia: guias de ação e tipologias de workshops inclui propostas concretas para a dinamização dos workshops de Aprendizagem pela conversa segundo as tipologias que estruturaram o projeto, com potencial para ser apropriado e recontextualizado em torno de tópicos e espaços distintos.

No sentido de que este Caderno passe a ser vosso, resta-nos desejar-vos bom trabalho.

Boas conversas!
Marijke, Cláudia, Raquel, Alexandra e Liliana



quinta-feira, 29 de março de 2012

Lideranças Partilhadas. Percursos de Literacia para a Igualdade de Género e Qualidade de Vida

A presente publicação resulta do trabalho desenvolvido no âmbito do projeto Literacia para a Igualdade de Género e Qualidade de Vida: Lideranças Partilhadas da Fundação Cuidar O Futuro.

Esta publicação reúne contributos de mulheres e homens que participaram de formas diversas nos percursos realizados: como representantes de organizações parceiras e codinamizadoras ou dinamizadores dos workshops; como facilitadoras (parcerias transnacionais) no processo de reflexão das equipas do projeto e de dinamização; como participantes nos workshops; como avaliadoras externas ou ainda como membros da equipa do projeto.

De sublinhar também o contributo da oradora sueca convidada para proferir a conferência sobre Consciência cívica enquanto forma moderna de solidariedade social, realizada já na fase final do projeto, servindo de semente de e para o futuro.

Os textos demonstram a pluralidade de vozes que se cruzaram neste percurso de literacia para a liderança, na dupla perspetiva de igualdade de género e de qualidade de vida. Para além da informação sobre a ação realizada neste projeto, nalguns deles encontra-se também informação sobre a investigação realizada no âmbito do Programa de Investigação e Intervenção da Fundação Cuidar O Futuro, onde foi preparado o “chão de partida” para a conceção deste projeto.

No intuito de encontrar uma certa lógica, embora que difusa, optou-se por reunir os textos em três capítulos.

O capítulo À PROCURA DE UM CHÃO DE PARTIDA. CONTRIBUTOS IMPULSIONADORES agrega os textos que sustentaram o projeto Literacia para a Igualdade de Género e Qualidade de Vida: Lideranças Partilhadas, quer na formação da equipa, quer na preparação do grupo alargado de dinamizadoras e dinamizadores.

Em Lideranças Partilhadas. A caminho de um novo paradigma? Marijke de Koning dá voltas nómadas através de percursos de literacia para a liderança de mulheres realizados no âmbito da Fundação Cuidar O Futuro, desde 2004, no intuito de sistematizar e problematizar a experiência de investigação-ação e a metodologia utilizada. O próprio processo de liderança da equipa do projeto é objeto de reflexão, bem como a viabilidade de lideranças partilhadas.

Em Reflexões sobre literacia de mulheres para a liderança, a viagem de uma amizade, Ine van Emmerik explora o desenvolvimento da liderança das mulheres como um caminho circular, com base na imagem do zigurate introduzida por Maria de Lourdes Pintasilgo.

Em Espaço em branco, intervisão e agência partilhada, Ine van Emmerik aborda o espaço em branco enquanto lugar que fica na transição entre a ordem e a surpresa, onde se propicia o aprender no encontro, na intervisão e no confronto com a alteridade para atingir uma agência partilhada.

No texto Vitamina C para comunidades. Comunicación como arte y arte como comunicación, Jeannette Claessen une comunicação a arte comunitária no sentido do desenvolvimento da comunidade visando a redução de riscos sociais através de uma autêntica participação das pessoas.

O capítulo QUESTIONANDO PRÁTICAS, CRUZANDO TRAJETOS reúne os textos que aprumam posturas desafiadoras de questionamento da teoria ao serviço das práticas

Em Consciência cívica enquanto forma moderna de solidariedade social, Kerstin Jacobsson introduz as noções de consciência cívica e de co-sentimento cívico enquanto categorias sociológicas, abordando a combinação específica de individualismo e coletivismo característica da cultura cívica sueca para conceptualizar os laços sociais e os mecanismos de integração e solidariedade sociais na Suécia contemporânea.

Em Produzir conhecimento a partir das pessoas, Teresa Toldy analisa os desafios colocados pela crítica feminista à produção de discursos de mulheres para mulheres, nomeadamente os desafios colocados à palavra por silêncios que se constituem como formas de resistência ao discurso regulador.

Hugo Monteiro, no texto Diálogo, investigação e emancipação: percursos partilhados, parte da noção de diálogo como abertura ao outro e emancipação pessoal e social que faculta vias complexas e partilhadas de significação e descoberta, para ensaiar interrogar o alcance metodológico sugerido na expressão aprendizagem pela conversa e questionar o conceito de lideranças partilhadas.

Em Conversa(s) sobre qualidade de vida e trabalho social: do desenvolvimento pessoal ao desenvolvimento social significativo, Liliana Lopes conceptualiza a qualidade de vida enquanto desenvolvimento pessoal e social para refletir sobre o papel desempenhado por trabalhadoras e trabalhadores sociais na promoção da melhoria sustentada da qualidade de vida das populações, abordando as tensões dialéticas surgidas nos worshops do projeto.

No texto Ideias a desconstruir ou a reinventar: questionando percursos tradicionais de liderança de mulheres e de homens, Cláudia Múrias e Raquel Ribeiro procuram constituir o percurso de literacia para a igualdade de género da equipa coordenadora do projeto, enquadrando ainda, resumidamente, a proposta de igualdade de género subjacente ao mesmo.

Em Aprender pela conversa: assim como e depois?, Eunice Macedo e Amélia Macedo questionam a aprendizagem pela conversa enquanto instrumento de lideranças partilhadas para a construção de literacia, igualdade de género e qualidade de vida, recorrendo às observações efetuadas sobre os workshops do projeto e aos conceitos de voz de Arnot e de democracia inclusiva de Young.

O capítulo ANCORANDO EXPERIENCIAS PLURAIS: REFLEXÕES A PARTIR DE VIVÊNCIAS agrupa os textos que ancoram as narrativas produzidas nas vivências experienciadas neste projeto.

Em Estereótipos sobre as mulheres: apontamentos para uma abordagem histórica, António Nunes mostra como a educação das mulheres, em Portugal e durante os inícios do Estado Novo, acabou por traduzir um conjunto de clichés sobre as mulheres que se têm tornado difíceis de modificar, salientando que o momento narrático ao organizar o não-formal faz emergir o reencontro com a problemática, deslocando-a da periferia para o centro da nossa civilização.

Fátima Veiga, no texto A construção de lideranças num contexto de (in)diferença ao nível do género e da exclusão social, reporta o envolvimento da EAPN Portugal no projeto, salientando os pontos de interesse e de união entre a missão da organização e as temáticas e objetivos centrais do mesmo, nomeadamente a liderança, as questões de género, a pobreza e a exclusão social, e reflete acerca das dinâmicas vivenciadas nos workshops, evidenciando os testemunhos de várias participantes.

No texto Reflexões sobre Lideranças Partilhadas: um projeto que conheci e vivi, Ionut Cosmin Nadă propõe-se a apresentar uma visão diferente sobre o projeto por pertencer a um simples participante nas atividades e por apresentar um olhar do exterior, mas não distante ou pouco envolvido. Faz ainda uma curta radiografia de Portugal, através de um aparelho de fabricação estrangeira, conferindo uma visão outra sobre o país, mas em sintonia com os objetivos do projeto.

Em Voos Sustentados, Filipa Júlio, jornalista de profissão, responde ao desafio de descrever, com um olhar jornalístico, a implementação do projeto Lideranças Partilhadas na Semente de Futuro, uma das parcerias rurais do projeto. Aceitado o repto, usa a caneta e o papel em branco para viajar um pouco pelas experiências partilhadas por algumas das intervenientes, entre outras pelas duas dinamizadoras Ana Maria Braga da Cruz e Bonina Brandão.

Por último, no texto Das motivações às apreciações. Aprendizagens pela conversa na literacia para a igualdade de género, qualidade de vida e lideranças partilhadas, Raquel Ribeiro e Cláudia Múrias debruçam-se sobre as motivações e apreciações das 248 pessoas participantes nos workshops, para discutir o contributo do projeto na promoção de literacia para a igualdade de género, qualidade de vida e lideranças partilhadas.

Os nossos agradecimentos dirigem-se a autoras e autores que aqui estão presentes com a palavra escrita, mas também a todas e todos que participaram com as suas vozes e os seus silêncios nas Conversas, que constituíram o contexto onde se pode questionar práticas e ir reinventando formas outras de agir.

Um especial agradecimento às autoras do prefácio, Luiza Cortesão, Presidente do Instituto Paulo Freire de Portugal (IPFP), e do posfácio, Helena Costa Araújo, Diretora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Sem estas parcerias de primeira hora, este projeto não teria tomado o rumo que tomou. (Múrias & Koning, 2012: 11-14).